{"id":31948,"date":"2026-10-19T12:18:06","date_gmt":"2026-10-19T15:18:06","guid":{"rendered":"https:\/\/zerohoranews.com\/?p=31948"},"modified":"2026-10-19T12:18:06","modified_gmt":"2026-10-19T15:18:06","slug":"a-juventude-empurra-o-pt-para-o-futuro-por-jose-dirceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zerohoranews.com\/?p=31948","title":{"rendered":"A juventude empurra o PT para o futuro (por Jos\u00e9 Dirceu)"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Durante muito tempo se repetiu a cantilena de que o PT havia envelhecido, perdido contato com as novas gera\u00e7\u00f5es e deixado para a direita e a extrema direita o protagonismo entre os jovens. Havia raz\u00f5es para levar esse diagn\u00f3stico em conta: formas tradicionais de organiza\u00e7\u00e3o perderam efic\u00e1cia e demoramos a compreender novas linguagens, redes sociais e mudan\u00e7as no mundo do trabalho.<\/p>\n<p><span class=\"highlight\">O erro foi transformar dificuldades reais, pr\u00f3prias desses tempos de mudan\u00e7as profundas, em senten\u00e7a definitiva.<\/span><\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o deste ano mostra uma realidade mais complexa. A juventude \u00e9 hoje um dos segmentos em que Lula encontra apoio relevante, tem papel importante na mobiliza\u00e7\u00e3o do segundo turno e uma nova gera\u00e7\u00e3o come\u00e7a a conquistar espa\u00e7o no PT e no campo progressista. A tese de uma ruptura irrevers\u00edvel entre a juventude, Lula e o PT n\u00e3o se sustenta. Ao contr\u00e1rio: voltamos a disputar esse terreno com for\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do primeiro turno, o Datafolha mostrava Lula com 46% entre os eleitores de 16 a 24 anos, contra 32% de Fl\u00e1vio Bolsonaro. Depois do primeiro turno, o movimento ficou ainda mais significativo. Na primeira pesquisa dessa etapa, Fl\u00e1vio aparecia numericamente \u00e0 frente, por 50% a 43%.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Va9kFgRId7nRaEwtHh1m\" class=\"flex justify-center items-center gap-3 px-3 py-2.5 bg-green-500 text-white! no-underline! font-bold rounded-full my-4\"><span class=\"inline-flex gap-3 items-center max-w-10\/12 text-sm leading-4.5 font-semibold font-sans tracking-tighter whitespace-pre-line md:whitespace-normal xs:max-w-9\/12 md:text-lg md:max-w-full\"><svg width=\"40\" height=\"40\" viewbox=\"0 0 24 24\" fill=\"currentColor\" aria-hidden=\"true\" class=\"shrink-0\"><path d=\"M17.472 14.382c-.297-.149-1.758-.867-2.03-.967-.273-.099-.471-.148-.67.15-.197.297-.767.966-.94 1.164-.173.199-.347.223-.644.075-.297-.15-1.255-.463-2.39-1.475-.883-.788-1.48-1.761-1.653-2.059-.173-.297-.018-.458.13-.606.134-.133.298-.347.446-.52.149-.174.198-.298.298-.497.099-.198.05-.371-.025-.52-.075-.149-.669-1.612-.916-2.207-.242-.579-.487-.5-.669-.51-.173-.008-.371-.01-.57-.01-.198 0-.52.074-.792.372-.272.297-1.04 1.016-1.04 2.479 0 1.462 1.065 2.875 1.213 3.074.149.198 2.096 3.2 5.077 4.487.709.306 1.262.489 1.694.625.712.227 1.36.195 1.871.118.571-.085 1.758-.719 2.006-1.413.248-.694.248-1.289.173-1.413-.074-.124-.272-.198-.57-.347m-5.421 7.403h-.004a9.87 9.87 0 01-5.031-1.378l-.361-.214-3.741.982.998-3.648-.235-.374a9.86 9.86 0 01-1.51-5.26c.001-5.45 4.436-9.884 9.888-9.884 2.64 0 5.122 1.03 6.988 2.898a9.825 9.825 0 012.893 6.994c-.003 5.45-4.437 9.884-9.885 9.884m8.413-18.297A11.815 11.815 0 0012.05 0C5.495 0 .16 5.335.157 11.892c0 2.096.547 4.142 1.588 5.945L.057 24l6.305-1.654a11.882 11.882 0 005.683 1.448h.005c6.554 0 11.890-5.335 11.893-11.893A11.821 11.821 0 0020.465 3.488\"\/><\/svg>Entre no canal de WhatsApp <!-- --><br \/>\n<!-- -->do<!-- --> <!-- -->Metr\u00f3poles<\/span><\/a><\/p>\n<p>No Datafolha de 15 de outubro, o placar se inverteu: Lula passou a 50% e Fl\u00e1vio caiu para 43%. Em votos v\u00e1lidos, s\u00e3o 54% a 46%. A margem de erro nesse segmento \u00e9 de seis pontos, portanto h\u00e1 empate t\u00e9cnico. Ainda assim, em uma semana Lula ganhou sete pontos e Fl\u00e1vio perdeu sete entre os mais jovens.<\/p>\n<p>Pesquisa n\u00e3o \u00e9 voto, sobretudo em recortes menores. Mas, combinadas com o que vemos nas ruas, as pesquisas revelam um movimento que precisa ser compreendido pela esquerda.<\/p>\n<p><strong>Jovens e movimentos estudantis<\/strong><\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o deste segundo turno \u00e9 outra evid\u00eancia. Jovens e movimentos estudantis tiveram protagonismo em atos recentes, ao lado de movimentos sociais, artistas, coletivos e comunidades digitais. H\u00e1 estruturas partid\u00e1rias, mas tamb\u00e9m grupos aut\u00f4nomos. A esquerda precisa aprender com isso, sem enquadrar toda manifesta\u00e7\u00e3o nas formas do passado.<\/p>\n<p>A digitaliza\u00e7\u00e3o, a plataformiza\u00e7\u00e3o e o trabalho prec\u00e1rio mudaram a maneira como milh\u00f5es vivem e se organizam. O jovem da periferia, o entregador submetido ao algoritmo e quem combina estudo, bicos e emprego prec\u00e1rio fazem parte dessa realidade. O PT precisa falar com essa juventude como ela existe.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o resolveremos nossa rela\u00e7\u00e3o com os jovens contratando mais influenciadores ou aprendendo a fazer v\u00eddeos curtos. Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, mas ningu\u00e9m sustenta uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica sem projeto. E projeto \u00e9 algo que temos: um projeto ancorado na constru\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o na destrui\u00e7\u00e3o, como \u00e9 o da extrema direita bolsonarista.<\/p>\n<blockquote class=\"m-blockquote m-destaque\">\n<p>H\u00e1 uma terceira evid\u00eancia: as urnas. O PT elegeu 70 deputados federais e a idade m\u00e9dia da bancada caiu de 55,2 anos em 2022 para 52,6 anos em 2026, a primeira redu\u00e7\u00e3o desde 1998. Ainda teremos uma das bancadas mais velhas da C\u00e2mara, mas o movimento come\u00e7ou.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Alguns nomes relevantes d\u00e3o rosto \u00e0 mudan\u00e7a. Ana Elisa, de Minas, foi eleita aos 21 anos. Ana J\u00falia Ribeiro e Pedro Rousseff t\u00eam 26. Diego Quaqu\u00e1, 28; Rosa Amorim, 29; Camila Jara, 31; Luna Zarattini e Dandara Tonantzin, 32; e Miguel \u00c2ngelo, 35.<\/p>\n<p>No campo progressista mais amplo, Guilherme Cortez, do PSOL, tamb\u00e9m integra essa renova\u00e7\u00e3o. Isso sem contar lideran\u00e7as j\u00e1 consolidadas, mas igualmente jovens, como Erika Hilton, de 33 anos, ou a nova gera\u00e7\u00e3o petista que estar\u00e1 na Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo, com Duda Hidalgo, 27, Leonardo Grandini, 24, e Thainara Faria, 31. H\u00e1 muitos outros exemplos espalhados pelo pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>\u201cCom o novo todo o velho contagia\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O poeta Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto escreveu em Morte e Vida Severina: \u201cCom o novo todo o velho contagia\u201d e \u201ccorrompe com sangue novo a anemia\u201d. A chegada de uma gera\u00e7\u00e3o formada no movimento estudantil, nas periferias, nas lutas das mulheres e do movimento negro, nas redes e em novas formas de milit\u00e2ncia pode renovar ideias, m\u00e9todos e a rela\u00e7\u00e3o do partido com a sociedade.<\/p>\n<p>Lula percebeu esse movimento. Depois do primeiro turno, reuniu parlamentares eleitos e gravou com jovens como Ana Elisa, Rosa Amorim, Luna Zarattini e Guilherme Cortez. O encontro entre Lula, aos 80 anos, e deputados de 20 e poucos ou 30 e poucos anos ultrapassa uma campanha. A continuidade de um projeto pol\u00edtico se constr\u00f3i formando novas lideran\u00e7as.<\/p>\n<p>Como o pr\u00f3prio Lula me disse: \u201cO meu sucessor \u00e9 o PT\u201d. N\u00e3o no sentido burocr\u00e1tico de substituir um nome por outro, mas de construir for\u00e7a pol\u00edtica, base social e novas lideran\u00e7as capazes de levar adiante um projeto nacional. Uma organiza\u00e7\u00e3o s\u00f3 sobrevive quando transmite experi\u00eancia sem impedir a novidade.<\/p>\n<p>E \u00e9 justamente o futuro que est\u00e1 no centro da quest\u00e3o da juventude. Em artigo que escrevi em abril para a Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, afirmei que o capitalismo contempor\u00e2neo rebaixa expectativas e reduz horizontes.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es vivem administrando urg\u00eancias: a conta que vence, o aluguel, a procura por emprego, a d\u00edvida, o pr\u00f3ximo servi\u00e7o no aplicativo. Para quem vive assim, planejar cinco ou dez anos adiante muitas vezes se torna um privil\u00e9gio. Recuperar o futuro \u00e9 uma tarefa pol\u00edtica central.<\/p>\n<p>Que futuro oferecemos ao jovem que conclui a universidade e encontra trabalho prec\u00e1rio? Ao estudante que precisa abandonar os estudos para ajudar na renda da fam\u00edlia? Ao trabalhador de aplicativo que n\u00e3o sabe quanto ganhar\u00e1 no m\u00eas seguinte?<\/p>\n<p>O Prouni, as cotas, os institutos federais, a expans\u00e3o das universidades e o P\u00e9-de-Meia ampliaram oportunidades. Mas seria um erro transformar conquistas do passado em cobran\u00e7a de gratid\u00e3o pol\u00edtica. Direitos n\u00e3o s\u00e3o favores. Uma gera\u00e7\u00e3o que teve mais oportunidades tem todo o direito de exigir o pr\u00f3ximo passo.<\/p>\n<p>Esse passo precisa associar educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia, tecnologia, reindustrializa\u00e7\u00e3o, transi\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e trabalho de qualidade. Precisamos enfrentar a precariza\u00e7\u00e3o e discutir intelig\u00eancia artificial olhando tamb\u00e9m para o emprego e a distribui\u00e7\u00e3o dos ganhos de produtividade. A redu\u00e7\u00e3o da jornada fala diretamente com essa gera\u00e7\u00e3o: desenvolvimento tecnol\u00f3gico deve significar mais qualidade de vida, e n\u00e3o apenas mais produtividade.<\/p>\n<p><strong>Transformar o sistema por dentro<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 na juventude uma for\u00e7a contestadora, uma disposi\u00e7\u00e3o para questionar hierarquias, conven\u00e7\u00f5es e estruturas estabelecidas. \u00c9, nesse sentido, uma for\u00e7a antissist\u00eamica. Nos \u00faltimos anos, a direita radical, em sua forma bolsonarista, conseguiu apresentar-se a muitos jovens como dona dessa rebeldia, como se ser contra o sistema significasse necessariamente ser contra a esquerda, os partidos e o Estado.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 assim. A luta antissist\u00eamica tamb\u00e9m pode se dar no Partido dos Trabalhadores. O PT nasceu contestando uma ordem pol\u00edtica, econ\u00f4mica e social profundamente desigual e procurando transformar indigna\u00e7\u00e3o em mudan\u00e7a concreta. Quarenta e seis anos de hist\u00f3ria, governos, acertos e erros n\u00e3o apagam essa origem.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma aparente contradi\u00e7\u00e3o: como um partido que esteve tanto tempo no governo pode continuar sendo for\u00e7a de transforma\u00e7\u00e3o? A resposta depende do que fazemos com o poder. Estar dentro das institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisa significar conformar-se com elas. Com organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o social, o poder pol\u00edtico pode produzir transforma\u00e7\u00f5es mais eficazes.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que o sangue novo se torna indispens\u00e1vel: para trazer inconformismo, cr\u00edtica e disposi\u00e7\u00e3o para mudar aquilo que a rotina do poder tende a naturalizar. Um partido de transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve pedir aos jovens que abandonem sua rebeldia para entrar nele. Precisa oferecer espa\u00e7o para que transformem rebeldia em organiza\u00e7\u00e3o, projeto e mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>A direita e a extrema direita tamb\u00e9m disputam essa gera\u00e7\u00e3o. Constru\u00edram jovens lideran\u00e7as, tiveram \u00eaxito nas redes e souberam explorar frustra\u00e7\u00f5es que a esquerda nem sempre compreendeu. Ningu\u00e9m possui o monop\u00f3lio da juventude. O que esta elei\u00e7\u00e3o mostra \u00e9 que essa disputa est\u00e1 aberta e que Lula, o PT e o campo progressista voltaram a ocup\u00e1-la com for\u00e7a.<\/p>\n<p>Nosso desafio \u00e9 n\u00e3o desperdi\u00e7ar essa oportunidade. Precisamos combinar experi\u00eancia hist\u00f3rica com novas formas de participa\u00e7\u00e3o, reconstruir o trabalho de base sem nostalgia e dar poder real \u00e0s novas lideran\u00e7as. Um partido que nasceu para transformar o Brasil n\u00e3o pode ter medo de se transformar.<\/p>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o que vemos nesta elei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 duradoura apenas se formos capazes de responder \u00e0 pergunta essencial que toda nova gera\u00e7\u00e3o faz \u00e0 pol\u00edtica: qual futuro voc\u00eas t\u00eam para nos oferecer? \u00c9 isso que definir\u00e1 a capacidade do PT de continuar sendo, nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, um instrumento de transforma\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<ul>\n<li><em>Jos\u00e9 Dirceu \u00e9 ex-ministro-chefe da Casa Civil, ex-deputado federal e ex-deputado estadual pelo estado de S\u00e3o Paulo<\/em><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/ponto-de-vista\/a-juventude-empurra-o-pt-para-o-futuro-por-jose-dirceu\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante muito tempo se repetiu a cantilena de que o PT havia envelhecido, perdido contato com as novas gera\u00e7\u00f5es e deixado para a direita e a extrema direita o protagonismo entre os jovens. 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