{"id":33447,"date":"2026-08-09T02:52:40","date_gmt":"2026-08-09T05:52:40","guid":{"rendered":"https:\/\/zerohoranews.com\/?p=33447"},"modified":"2026-08-09T02:52:40","modified_gmt":"2026-08-09T05:52:40","slug":"juizas-afegas-vivem-no-df-apos-fugirem-das-crueldades-do-taliba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zerohoranews.com\/?p=33447","title":{"rendered":"Ju\u00edzas afeg\u00e3s vivem no DF ap\u00f3s fugirem das crueldades do Talib\u00e3"},"content":{"rendered":"<div>\n<p>Antes de chegar ao Distrito Federal, Farzana Ahmadi* tinha na educa\u00e7\u00e3o sua principal ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o. Aos 36 anos, a afeg\u00e3 nascida em Cabul acumulava mais de sete anos de experi\u00eancia como professora de ingl\u00eas e tamb\u00e9m atuava como tradutora. Em sala de aula, ajudava crian\u00e7as e jovens a aprender, ampliar horizontes e construir novas perspectivas para o futuro.<\/p>\n<p><span class=\"highlight\">Em 2022, por\u00e9m, deixou o Afeganist\u00e3o diante das restri\u00e7\u00f5es impostas pelo Talib\u00e3 \u00e0s mulheres ap\u00f3s a retomada do poder pelo grupo, em agosto de 2021.<\/span><\/p>\n<p>Quando Farzana deixou o pa\u00eds, meninas j\u00e1 haviam sido impedidas de continuar os estudos em determinados n\u00edveis de ensino, e mulheres tinham perdido o direito de frequentar universidades. Para ela, a proibi\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o representa uma perda que vai al\u00e9m da trajet\u00f3ria individual de cada mulher e compromete o desenvolvimento de toda a sociedade afeg\u00e3.<\/p>\n<blockquote class=\"m-blockquote m-destaque\">\n<p>\u201cA educa\u00e7\u00e3o faz uma mulher entender quem ela \u00e9, conhecer sua hist\u00f3ria, desenvolver sua voz e lutar pelos pr\u00f3prios direitos. Ela nos d\u00e1 dignidade, independ\u00eancia e a capacidade de fazer escolhas. Quando uma menina \u00e9 impedida de estudar, ela n\u00e3o perde apenas a oportunidade de aprender; perde parte do seu futuro. E um pa\u00eds que impede suas meninas de estudar tamb\u00e9m compromete o pr\u00f3prio futuro\u201d, afirmou Farzana ao <strong>Metr\u00f3poles<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A chegada dela ao DF ocorreu um ano depois da retirada de um grupo de ju\u00edzas afeg\u00e3s amea\u00e7adas pelo regime extremista. <span class=\"highlight\">Farzana \u00e9 irm\u00e3 de uma das magistradas que deixou o Afeganist\u00e3o em 2021 junto com outras seis ju\u00edzas e seus familiares.<\/span> Depois da sa\u00edda da irm\u00e3, ela tamb\u00e9m conseguiu deixar o pa\u00eds e chegou ao Distrito Federal.<\/p>\n<p><a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/whatsapp.com\/channel\/0029Vb5fRx32phHRJiFmFr3W\" class=\"flex justify-center items-center gap-3 px-3 py-2.5 bg-green-500 text-white! no-underline! font-bold rounded-full my-4\"><span class=\"inline-flex gap-3 items-center max-w-10\/12 text-sm leading-4.5 font-semibold font-sans tracking-tighter whitespace-pre-line md:whitespace-normal xs:max-w-9\/12 md:text-lg md:max-w-full\"><svg width=\"40\" height=\"40\" viewbox=\"0 0 24 24\" fill=\"currentColor\" aria-hidden=\"true\" class=\"shrink-0\"><path d=\"M17.472 14.382c-.297-.149-1.758-.867-2.03-.967-.273-.099-.471-.148-.67.15-.197.297-.767.966-.94 1.164-.173.199-.347.223-.644.075-.297-.15-1.255-.463-2.39-1.475-.883-.788-1.48-1.761-1.653-2.059-.173-.297-.018-.458.13-.606.134-.133.298-.347.446-.52.149-.174.198-.298.298-.497.099-.198.05-.371-.025-.52-.075-.149-.669-1.612-.916-2.207-.242-.579-.487-.5-.669-.51-.173-.008-.371-.01-.57-.01-.198 0-.52.074-.792.372-.272.297-1.04 1.016-1.04 2.479 0 1.462 1.065 2.875 1.213 3.074.149.198 2.096 3.2 5.077 4.487.709.306 1.262.489 1.694.625.712.227 1.36.195 1.871.118.571-.085 1.758-.719 2.006-1.413.248-.694.248-1.289.173-1.413-.074-.124-.272-.198-.57-.347m-5.421 7.403h-.004a9.87 9.87 0 01-5.031-1.378l-.361-.214-3.741.982.998-3.648-.235-.374a9.86 9.86 0 01-1.51-5.26c.001-5.45 4.436-9.884 9.888-9.884 2.64 0 5.122 1.03 6.988 2.898a9.825 9.825 0 012.893 6.994c-.003 5.45-4.437 9.884-9.885 9.884m8.413-18.297A11.815 11.815 0 0012.05 0C5.495 0 .16 5.335.157 11.892c0 2.096.547 4.142 1.588 5.945L.057 24l6.305-1.654a11.882 11.882 0 005.683 1.448h.005c6.554 0 11.890-5.335 11.893-11.893A11.821 11.821 0 0020.465 3.488\"\/><\/svg>Entre no canal de WhatsApp <!-- --><br \/>\n<!-- -->do<!-- --> <!-- -->Metr\u00f3poles DF<\/span><\/a><\/p>\n<p>As magistradas perseguidas pelo Talib\u00e3 haviam atuado na condena\u00e7\u00e3o de integrantes do grupo extremista por crimes como terrorismo, assassinato e viol\u00eancia contra mulheres, al\u00e9m de defenderem direitos femininos. A atua\u00e7\u00e3o delas passou a ser motivo de persegui\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o retorno do grupo ao poder.<\/p>\n<div class=\"splide-container\">\n<div class=\"splide main-slider hide\">\n<p><button><span>Fechar modal.<\/span><\/button><\/p>\n<div class=\"splide__metropoles-logo\"><\/div>\n<div class=\"splide__track\">\n<div class=\"splide__list\">\n<div class=\"splide__slide\">\n<div class=\"splide__image\"><\/div>\n<div class=\"splide__content\"><span class=\"splide__current-slide\">1 de 3<\/span><\/p>\n<p class=\"splide__caption\">Ju\u00edzas afeg\u00e3s foram retiradas do Afeganist\u00e3o em 2021 ap\u00f3s serem amea\u00e7adas pelo Talib\u00e3<\/p>\n<p><span class=\"splide__credits\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instituto SHE<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"splide__slide\">\n<div class=\"splide__image\"><\/div>\n<div class=\"splide__content\"><span class=\"splide__current-slide\">2 de 3<\/span><\/p>\n<p class=\"splide__caption\">Magistradas que atuaram em processos contra integrantes do Talib\u00e3 passaram a ser perseguidas ap\u00f3s o grupo retomar o poder<\/p>\n<p><span class=\"splide__credits\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instituto SHE<\/span><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"splide__slide\">\n<div class=\"splide__image\"><\/div>\n<div class=\"splide__content\"><span class=\"splide__current-slide\">3 de 3<\/span><\/p>\n<p class=\"splide__caption\">Sete ju\u00edzas afeg\u00e3s e familiares deixaram o pa\u00eds em uma articula\u00e7\u00e3o que levou 26 pessoas inicialmente ao Brasil<\/p>\n<p><span class=\"splide__credits\">Reprodu\u00e7\u00e3o\/Instituto SHE<\/span><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p>Roberta Abdanur, cofundadora e conselheira do <a href=\"https:\/\/sheinstitute.org\/site\/pt-br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Instituto SHE (Sustainable Humanitarian Empowerment)<\/a>, organiza\u00e7\u00e3o criada a partir do acolhimento de fam\u00edlias afeg\u00e3s e com sede em Bras\u00edlia, explica que a crise humanit\u00e1ria no Afeganist\u00e3o tamb\u00e9m tem aumentado a busca por prote\u00e7\u00e3o entre mulheres que deixam o pa\u00eds.<\/p>\n<blockquote class=\"m-blockquote m-destaque\">\n<p>\u201cO Afeganist\u00e3o vive uma das maiores crises humanit\u00e1rias do mundo, com mais da metade da popula\u00e7\u00e3o necessitando de assist\u00eancia. Desde que o Talib\u00e3 retomou o poder, houve aumento nos pedidos de prote\u00e7\u00e3o de mulheres afeg\u00e3s, tanto internacionalmente quanto no Brasil. As restri\u00e7\u00f5es impostas pelo regime \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, ao trabalho e \u00e0 mobilidade s\u00e3o cada vez mais reconhecidas como formas de persegui\u00e7\u00e3o baseada em g\u00eanero, o que fortalece juridicamente esses pedidos de prote\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em 2021, a Associa\u00e7\u00e3o dos Magistrados Brasileiros (AMB) articulou a retirada das sete ju\u00edzas afeg\u00e3s e seus familiares. Ao todo, 26 pessoas desse grupo foram recebidas inicialmente no Brasil e passaram pelo processo de acolhimento.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia tamb\u00e9m envolveu outras fam\u00edlias afeg\u00e3s que chegaram \u00e0 capital do pa\u00eds. Segundo Roberta, o Instituto SHE tem registro de 24 fam\u00edlias que passaram pela unidade da Federa\u00e7\u00e3o, embora parte delas tenha seguido posteriormente para outras regi\u00f5es em busca de oportunidades.<\/p>\n<p>\u201cEu n\u00e3o tenho n\u00fameros exatos. O que temos de registro s\u00e3o 24 fam\u00edlias afeg\u00e3s. Dessas, considerando o grupo das magistradas e familiares, s\u00e3o cerca de 30 pessoas que eu consigo afirmar. Mas outras chegaram ao DF e depois foram para outras cidades, inclusive em Goi\u00e1s. Ent\u00e3o acredito que esse recorte das fam\u00edlias afeg\u00e3s que passaram por aqui chega perto de 100 pessoas\u201d, explica.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia de acolhimento dessas fam\u00edlias tamb\u00e9m contribuiu para a atua\u00e7\u00e3o do Instituto SHE em Bras\u00edlia, organiza\u00e7\u00e3o voltada \u00e0 integra\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica de refugiados e migrantes em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Entre as iniciativas da entidade est\u00e1 a CCAMI (C\u00e2mara de Concilia\u00e7\u00e3o, Arbitragem e Media\u00e7\u00e3o Intercultural), criada para facilitar a media\u00e7\u00e3o de conflitos e aproximar refugiados e migrantes do sistema de Justi\u00e7a.<\/p>\n<h2><strong>Recome\u00e7o e pertencimento<\/strong><\/h2>\n<p>No Distrito Federal, Farzana precisou recome\u00e7ar a vida e<strong> enfrentar barreiras como a dificuldade com o idioma, a adapta\u00e7\u00e3o cultural e a busca por oportunidades de trabalho.<\/strong> Aprendeu portugu\u00eas e, aos poucos, retomou a atua\u00e7\u00e3o profissional, trabalhando com tradu\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m no apoio \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o de refugiados e migrantes.<\/p>\n<p>\u201cO portugu\u00eas \u00e9 distante do dari e do pashto, l\u00ednguas faladas no Afeganist\u00e3o, e isso pode dificultar desde a comunica\u00e7\u00e3o cotidiana at\u00e9 o acesso a servi\u00e7os, a busca por emprego e a retomada da forma\u00e7\u00e3o profissional. Por isso, aprender portugu\u00eas foi uma etapa importante para conseguir conquistar autonomia no Brasil\u201d, explica Farzana.<\/p>\n<p>Para ela, no entanto, a adapta\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m do aprendizado da l\u00edngua. A constru\u00e7\u00e3o de uma nova vida tamb\u00e9m envolve lidar com diferen\u00e7as culturais e encontrar espa\u00e7o para pertencer \u00e0 sociedade brasileira.<\/p>\n<blockquote class=\"m-blockquote m-destaque\">\n<p>\u201cMuitas mulheres afeg\u00e3s chegam usando o v\u00e9u e praticando sua f\u00e9 de forma vis\u00edvel. Isso pode fazer com que sejam vistas primeiro pela religi\u00e3o e s\u00f3 depois pela pessoa. Existe um desafio de pertencimento, porque precisamos aprender a viver em uma cultura diferente sem deixar de lado quem somos e nossa identidade\u201d, afirma.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Outro desafio enfrentado por refugiadas \u00e9 a retomada da vida profissional. <span class=\"highlight\">Muitas chegam ao Brasil com forma\u00e7\u00e3o superior e experi\u00eancia em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, direito e outras profiss\u00f5es, mas encontram dificuldades para validar diplomas e comprovar a forma\u00e7\u00e3o adquirida no Afeganist\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p>\u201c\u00c9 importante que mulheres que chegam ao Brasil tenham oportunidades de continuar suas profiss\u00f5es e de desenvolver novas habilidades. Muitas de n\u00f3s estudamos e trabalhamos durante anos no Afeganist\u00e3o. Recome\u00e7ar n\u00e3o deveria significar abandonar tudo o que constru\u00edmos profissionalmente\u201d, diz.<\/p>\n<h2>A trajet\u00f3ria do Talib\u00e3<\/h2>\n<p>O Talib\u00e3 surgiu em 1994, no Afeganist\u00e3o, formado principalmente por estudantes de semin\u00e1rios religiosos isl\u00e2micos. O grupo ganhou for\u00e7a em meio \u00e0 guerra civil e prometia restaurar a ordem no pa\u00eds, que enfrentava conflitos entre diferentes grupos armados ap\u00f3s a retirada sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Em 1996, o Talib\u00e3 tomou Cabul e assumiu o controle de grande parte do Afeganist\u00e3o. Durante seu primeiro governo, imp\u00f4s uma interpreta\u00e7\u00e3o rigorosa da sharia, restringindo a liberdade da popula\u00e7\u00e3o. Mulheres e meninas foram proibidas de estudar e trabalhar, obrigadas a usar a burca e impedidas de sair de casa sem a companhia de um homem.<\/p>\n<blockquote class=\"m-blockquote m-destaque\">\n<p><span class=\"highlight\">O grupo tamb\u00e9m manteve rela\u00e7\u00f5es com a Al-Qaeda, rede extremista liderada por Osama bin Laden. Ap\u00f3s os ataques de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos invadiram o Afeganist\u00e3o, derrubaram o governo talib\u00e3 e iniciaram uma longa guerra contra o movimento, que continuou atuando como insurg\u00eancia<\/span>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Em agosto de 2021, ap\u00f3s a retirada das tropas norte-americanas, o Talib\u00e3 avan\u00e7ou rapidamente pelo pa\u00eds e retomou Cabul em 15 de agosto. Com a volta ao poder, o grupo reinstalou restri\u00e7\u00f5es contra mulheres e meninas, impedindo o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, limitando o trabalho e a circula\u00e7\u00e3o e excluindo-as de grande parte da vida p\u00fablica.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, novas regras tamb\u00e9m restringiram a presen\u00e7a feminina em parques, academias, sal\u00f5es de beleza e organiza\u00e7\u00f5es civis. Mulheres passaram a enfrentar exig\u00eancias relacionadas \u00e0 vestimenta, \u00e0 companhia de homens e at\u00e9 \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica da pr\u00f3pria voz, em um processo que organismos internacionais classificam como uma grave crise de direitos humanos.<\/p>\n<p><em>*Nome fict\u00edcio utilizado para preservar a identidade da personagem por quest\u00f5es de seguran\u00e7a<\/em><\/p>\n<\/div>\n<p><br \/>\n<br \/><a href=\"https:\/\/www.metropoles.com\/distrito-federal\/juizas-afegas-vivem-no-df-apos-fugirem-das-crueldades-do-taliba\">Tribunal Bras\u00edlia <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de chegar ao Distrito Federal, Farzana Ahmadi* tinha na educa\u00e7\u00e3o sua principal ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o. Aos 36 anos, a afeg\u00e3 nascida em Cabul acumulava mais de sete anos de experi\u00eancia como professora de ingl\u00eas e tamb\u00e9m atuava como tradutora. 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