12 de janeiro de 2026

Com a entrada em vigor do IBS em 2026, médias e pequenas empresas precisarão se adaptar para evitar impactos fiscais negativos e aproveitar os benefícios da simplificação tributária
A adoção do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) inaugura, em 2026, uma das mudanças mais amplas já realizadas na tributação do consumo no Brasil. O novo imposto passa a integrar a espinha dorsal do modelo fiscal, reorganizando a cobrança hoje pulverizada entre tributos federais, estaduais e municipais. A migração para o IBS promete maior transparência e padronização, mas também expõe um ponto sensível do mercado. A capacidade de adaptação das médias e pequenas empresas torna-se determinante em um cenário no qual margens curtas e rotinas operacionais já são afetadas por custos elevados e exigências regulatórias crescentes. Um dos grandes impactos será a necessidade de adaptação tecnológica das empresas. Ao substituir ICMS, IPI, ISS, PIS e Cofins, o IBS introduz um sistema de apuração baseado em valor agregado e “por fora”, com alíquota de referência que pode chegar a 28%. Esse modelo exige que as empresas revisem completamente sua lógica de formação de preços, prazos de pagamento e recebimento, gestão de estoque, classificação fiscal e integração de dados. Para negócios de menor porte, esse processo representa aumento de custos e mudanças estruturais. De acordo com Mary Elbe Queiroz, advogada tributarista e presidente do Cenapret, “a principal preocupação das pequenas e médias empresas será com o aumento da complexidade no processo de apuração de tributos, gastos com tecnologia e, principalmente, na definição do valor agregado de cada operação”.
A especialista ressalta que, enquanto as grandes empresas podem ter mais facilidade para implementar os novos processos fiscais, as PMEs terão que investir em novos sistemas de gestão tributária, o que pode representar um custo adicional em um cenário de orçamento limitado. Segundo estudo, apenas 11% das empresas brasileiras afirmam estar preparadas para as mudanças fiscais. Esse dado acende alerta sobre o risco de aumento nos litígios. Hoje, o contencioso tributário já ultrapassa R$ 5,6 trilhões e pode se intensificar a partir de 2026, com a entrada em vigor do novo sistema tributário. O IBS será cobrado sobre o valor agregado em cada etapa da cadeia produtiva, e a transição exigirá que as empresas adotem controles mais rigorosos para apurar esse valor. Para as médias e pequenas empresas, que já enfrentam dificuldades de fluxo de caixa e falta de infraestrutura tecnológica, isso pode ser um desafio. Elas precisarão revisar suasestratégias de precificação, gestão de estoques e modelos de faturamento para garantir que a base de cálculo do imposto seja apurada corretamente, sem gerar dupla tributação ou erro na apuração. Mary Elbe Queiroz afirma que o cenário é ainda mais desafiador para empresas de setores como varejo e serviços, que dependem de operações rápidas e volume de transações. “Essas empresas precisarão adotar uma visão mais analítica sobre suas operações, para identificar corretamente o valor agregado e não incorrer em autuações fiscais.
O risco de erro na apuração e no registro dos créditos tributários será alto, e pode afetar a competitividade das PMEs”, explica. Outra mudança relevante é a unificação de tributos, que pode afetar diretamente a forma como as empresas se estruturam. Com o IBS substituindo vários impostos anteriores, as médias e pequenas empresas terão de adaptar seus fluxos financeiros e contábeis para garantir o correto pagamento do imposto, que será cobrado em uma base única. Isso exigirá maior integração entre as áreas contábil e fiscal, o que pode ser difícil para empresas menores, que frequentemente não possuem equipes dedicadas a essas áreas.
“As pequenas empresas, em particular, podem enfrentar dificuldades em compreender as novas regras, o que exige um trabalho conjunto com consultores especializados”, acrescenta Mary Elbe Queiroz. Além disso, a Reforma Tributária estabelece um prazo de transição até 2032, no qual os estados e municípios terão tempo para adaptar seus sistemas fiscais ao novo imposto.
Durante esse período, as médias e pequenas empresas poderão ter que lidar com uma transição gradual de sistemas, o que pode gerar dificuldades operacionais e, consequentemente, um aumento nos custos administrativos. Porém, espera-se que a prometida simplificação tributária, prevista pela reforma, traga também um potencial benefício para essas empresas.
Ao reduzir a quantidade de tributos a ser paga em diferentes etapas da cadeia produtiva, o IBS pode diminuir a burocracia tributária, que muitas vezes representa um fardo adicional para as PMEs. A reforma também prevê que os estados deverão compensar as perdas de arrecadação das empresas com mecanismos de repartição de receita, o que pode aliviar o impacto para as pequenas empresas de alguns setores. A recomendação para as médias e pequenas empresas é começar o planejamento tributário o quanto antes.
“A transição para o IBS exigirá mudanças no modo como as empresas precificam seus bens e serviços e como elas registram e apuram seus impostos. O timing certo para a adaptação aos novos sistemas pode ser o diferencial para evitar prejuízos fiscais e aproveitar os benefícios da reforma tributária”, finaliza Mary Elbe Queiroz.
