Passageiros expõem suas insatisfações com o serviço utilizado. Entre as maiores dores de cabeça estão: demora, atrasos e interrupção das viagens. Diretor técnico do metrô-DF reconhece
Relatório de administração do modal mostra que houve 60 interrupções no funcionamento em 2025. A meta era reduzir para 42 – (crédito: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Superlotação, falhas na operação, falta de trens e demora entre as viagens são queixas constantes de muitos dos usuários que dependem do metrô para se locomoverem. De janeiro a novembro do ano passado, ocorreram 97.403 viagens. O relatório de administração do modal mostra que houve 60 interrupções no funcionamento em 2025. A marca foi superior à meta estabelecida. Que era reduzir de 57 — pico atingido em 2024 — para 42.
Esses dados apontam que o nível de indisponibilidade da operação chegou a 0,84%, ultrapassando o valor do ano anterior (2024), 0,74%, e a meta estipulada para 2025 que era de 0,44%. “Acredito que veículos mais modernos possam oferecer mais conforto durante a viagem. Com cadeiras mais confortáveis, seria mais fácil enfrentar o trajeto todo dia. E com mais módulos, mais pessoas iriam embarcar, consequentemente, iria evitar a lotação em todos os vagões”, defende Iara Guimarães, 50 anos.
Essas falhas representam um transtorno enorme na rotina dos passageiros. Emanuella Alves, 26 anos, moradora Recanto das Emas, ficou presa no vagão em uma dessas ocasiões. “Foi uma situação muito inesperada, uma parada praticamente do nada e bem no horário de pico”, relembra. A jovem também reclama da lentidão nos horários de maior movimento, problema que já causou atraso de uma hora na chegada ao trabalho.
Imobilidade
Criado em 2001, o metrô de Brasília tem 27 estações em funcionamento. São 32 trens para atender cerca de 160 mil passageiros por dia. Os trilhos ligam as regiões de Samambaia e Ceilândia ao Plano Piloto, passando pela Asa Sul, Setor Policial Sul, Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), Guará, Park Way, Águas Claras e Taguatinga.
O especialista em mobilidade Carlos Penna avalia que esse quadro é reflexo de uma situação que ele nomeia como imobilidade. “Falta tudo, em todas as áreas”, afirma. Penna destaca que o impacto da “má gestão” pode ser observado no dia a dia da população. “Os carros do metrô estão circulando em condições não ideais e superlotados. A quantidade atual de 2,1 milhões de veículos para 3 milhões de habitantes é a demonstração da ausência de metrô”, explica.
O diretor técnico do metrô, Fernando Jorge Andrade, argumenta que a “injeção” de trens é feita de acordo com a demanda. “O que as pessoas experienciam é um pico de ocupação em determinados horários. É o que chamamos de movimento pendular. No fim do dia, acontece a mesma coisa, só que no trajeto saindo do Plano para Ceilândia e Samambaia”, detalha.
Estratégias
Segundo Andrade, o metrô possui um Centro de Controle Operacional (CCO) que analisa, em tempo real, a situação das plataformas das estações do metrô. “Na hora em que começa a encher a plataforma, por questões de segurança, eles injetam um trem que está estacionado no carrossel. É por questão de segurança, porque eu não posso deixar a plataforma lotada”, enfatiza.
Conforme o gestor, assim que é identificada uma movimentação acima do normal nas plataformas, outro veículo é colocado nas linhas. “Temos um carrossel preparado para essas situações. Alguns trens ficam parados na estação Central e nos terminais de Ceilândia e Samambaia”, acrescenta.
A companhia trabalha com o conceito de “incidente notável”, classificado quando há um atraso no sistema acima de 15 minutos no horário de pico, ou 20 minutos no de vale (horário com menor número de passageiros). Apesar dos transtornos, Andrade diz que a proporção dessas falhas é, estatisticamente, pequena: “A cada 1,5 mil viagens que a gente realiza, temos um incidente notável. Ou seja, é quase 0,06% das nossas viagens”. Dados do metrô revelam que, até os primeiros dias de abril, 19 incidentes notáveis ocorreram.
Mesmo com taxas consideradas pequenas dos chamados incidentes notáveis, Andrade reconhece que isso causa problemas para os passageiros. “Nossa meta, de toda a gestão, é ter zero ocorrência”, garante o diretor.
A companhia afirma que as falhas podem ter inúmeras causas, considerando que um trem possui mais de 2 mil componentes. Entre as mais comuns estão: nas portas (na maioria das vezes causadas por usuários que as forçam, obrigando o recolhimento do trem); no sistema de ar comprimido, de tração (motor) ou nos sistemas que controlam a movimentação dos trens; sistemas ou equipamentos de rede, tráfego ou energia.
Inclusão e carências
Todos os veículos do metrô incluem dois vagões especiais. O primeiro, o carro exclusivo, oferece embarque para mulheres e pessoas com deficiência (incluindo homens). O segundo, sendo o último vagão, permite o embarque de bicicletas.
Kaynã Soares, de 28 anos, gosta da iniciativa, mas relata muita dificuldade para usufruir do último vagão. Ele opina que seria necessário adicionar um vagão exclusivo para essa finalidade. “Eu acredito que, dessa forma, o nosso embarque seria melhor. É uma boa iniciativa, mas acho que poderia ter um pouco mais de atenção para a nossa situação”, comenta.
Ele também sente falta de mais recursos entre as estações. “É uma situação desumana, não tem banheiro e nem bebedouro. Como é que tratam as pessoas desse jeito? Às vezes, a gente tem que sair do metrô apertado e ir procurar algum banheiro fora da estação para conseguir usar. É um aspecto que eu queria que melhorasse muito no transporte”, avalia.
Fernando Jorge esclarece que a ausência de banheiros públicos dentro das estações segue um padrão internacional de segurança do transporte metroviário. “Se você abre o banheiro ali para a população dentro, você não tem como fazer o devido monitoramento por questões de privacidade. Fica suscetível a ter crime, roubo, drogas e violência sexual”, explicou
O diretor técnico afirma que o Metrô orienta os funcionários a liberarem os banheiros operacionais em casos de necessidade justificada. “É claro que, em uma situação muito urgente, e que a pessoa realmente precise usar o banheiro, como um idoso, uma mulher grávida ou criança, nossos colaboradores estão orientados a direcionar para um dos banheiros internos da estação”, assinala. Andrade cita que, nas áreas operacionais das estações, é possível encontrar banheiros disponíveis à população que não fazem parte da estrutura metroviária.






