Uma investigação conduzida pela Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) joga luz sobre um enredo de violência psicológica, agressões físicas, cárcere privado e violência sexual que perdurou por três anos. Uma jovem, de 19 anos, estudante da Universidade de Brasília (UnB), conseguiu romper o ciclo de silenciamento ao reunir um contundente acervo de áudios e vídeos que materializam os abusos cometidos por seu ex-namorado, Davi de Oliveira Mendonça, de 25 anos, que se apresenta como músico e designer.
Diante da robustez das provas apresentadas à Deam, a Justiça deferiu medidas protetivas de urgência, proibindo terminantemente que o agressor se aproxime ou mantenha qualquer tipo de contato com a vítima. O caso, que corre sob sigilo, revela a vulnerabilidade social e psicológica explorada por criminosos de forma sistemática. A vítima chegou a gravar, em áudio, o momento em que o agressor a estupra (ouça acima).
O calvário da universitária começou quando ela ainda era uma adolescente, de 17 anos, e cursava o 3º ano do ensino médio. Em um depoimento contundente obtido pela coluna Na Mira, a jovem narra que conheceu o agressor, então com 23 anos, em um momento de profunda fragilidade emocional, logo após presenciar a morte do avô por câncer.
“Eu estava em um momento de muita vulnerabilidade e ele começou a se aproximar de mim. Foi o meu primeiro namorado. Mesmo assim, ele já demonstrava comportamentos abusivos que, na época, eu não conseguia identificar”, relembra a estudante.
Difamação e isolamento
De acordo com a vítima, as primeiras demonstrações de controle envolviam invasão de privacidade, como a exigência de desbloquear o celular para vistoriar conversas e manipulações nas redes sociais. A violência simbólica logo se transformou em tentativa de sabotagem intelectual. Destaque acadêmico e aprovada no Enem e no PAS, a jovem passou a ser alvo de isolamento. O agressor desmerecia suas conquistas na UnB, alegando que a graduação era apenas “um diploma na parede” e afirmando, categoricamente, que ela não concluiria o curso — ameaça que a vítima gravou em um aparelho celular reserva.
As tentativas de término eram respondidas com ameaças de cunho psicológico e intimidação física. Ao tentar se afastar, a jovem foi alvo de campanhas de difamação orquestradas pelo agressor, que chegou a acusá-la falsamente de um suposto crime de racismo, no Gama, justamente no momento em que ela desenvolvia uma pesquisa acadêmica sobre jovens negros na periferia. “Fui embora do local onde nasci pelas difamações. Dormi no chão e fiquei dias sem ter o que comer por maldade dele”, relata.
O agressor utilizava até mesmo transferências bancárias via Pix para enviar mensagens à jovem, contornando os bloqueios digitais, pedindo perdão para forçar a retomada do convívio. A coluna entrou em contato com Davi para ouvi-lo sobre as denúncias. “Sim, tenho conhecimento de existência do inquérito, mas não tive acesso, não sei o conteúdo, apenas fui notificado de uma medida protetiva. Na oportunidade que eu tiver conhecimento dos fatos terei condições de me pronunciar. Mas de antemão, digo que sou inocente”, disse.
Agressões escalam
Ao ceder e morar com o investigado, as agressões físicas escalaram. Marcas de apertões e empurrões passaram a ser notadas por colegas de faculdade. Para garantir o isolamento da vítima, o homem quebrava pertences pessoais, como maquiagens e roupas, e utilizava o status social da própria família para coagi-la: dizia que o pai possuía contatos importantes e advogados, invalidando qualquer tentativa de denúncia.
As passagens mais contundentes dos áudios e vídeos detalham episódios de violência extrema. A vítima relata ter sido abusada sexualmente enquanto estava sob efeito de anti-histamínicos (antialérgicos):
- Violência sexual: ao acordar durante o ato não consentido, a estudante confrontou o agressor, sendo xingada e descredibilizada. O abuso resultou em lesões clínicas graves no colo do útero e sangramentos que persistiram por cinco dias;
- Stalking: em um dos episódios de perseguição urbana, a jovem só conseguiu cessar a abordagem ao buscar refúgio em frente à 14ª Delegacia de Polícia;
- Cárcere e agressão física: ao tentar retirar seus pertences do apartamento, a vítima diz que foi arrastada pelas escadas, pisoteada nos pés até sangrar e arremessada contra o mobiliário, o que teria lhe deixado cicatrizes permanentes. O agressor trancou portas e janelas e escondeu o telefone da vítima. As agressões só cessaram quando a jovem desmaiou devido a um pico hipertensivo.
Após o término definitivo, o assédio migrou para o ambiente de trabalho e militância partidária da jovem. O agressor passou a frequentar os mesmos locais para desqualificá-la profissionalmente, proferindo ofensas misóginas a terceiros.
Últimos ataques
Apesar do afastamento físico, as investidas violentas persistiram no decorrer do ano. Em 23 de abril, o homem seguiu a vítima no BRT do Gama, encurralando-a dentro do coletivo. Dias depois, na virada de 1º para 2 de maio, sob o pretexto falso do desaparecimento de um celular, o agressor cometeu um enforcamento violento contra a jovem, acompanhado de ameaças explícitas de morte: “Você tem sorte, pois naquele momento iria me matar”. Esse trecho foi gravado pela vítima.
A delegacia especializada constatou, durante a abertura do inquérito, que o investigado já possuía antecedentes criminais por violência doméstica enquadrados na Lei Maria da Penha, fato que corria em segredo de Justiça e era ocultado da vítima.
“Este relato tem como intuito mostrar que nenhuma mulher deveria estar lutando para ter sua liberdade e dignidade, e muito menos lutar para existir. Minha história não é um caso isolado. É horrível uma mulher ir trabalhar com medo, entrar em um ônibus com medo, ir estudar com medo. Por que nós temos que sentir medo? Nenhum amor agride ou te maltrata. Isso tem nome: Lei Maria da Penha”, desabafou.
A Deam segue colhendo depoimentos de testemunhas e analisando o material audiovisual entregue pela defesa da vítima.







