PF aponta contradições de delator sobre dinheiro para filme

A Polícia Federal (PF) apontou contradições no depoimento do empresário e delator Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, sobre remessas de US$ 12,3 milhões a um fundo nos Estados Unidos investigado por envolvimento no financiamento de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Dono da Entre Investimentos, Mineiro afirmou ter realizado transferências a pedido do pastor Fabiano Zettel, com o aval do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e cunhado do evangélico.

Mineiro disse, porém, que acreditava investir em empreendimentos imobiliários e que só soube da destinação dos recursos ao filme pela imprensa.

Os investigadores, entretanto, encontraram uma referência expressa à produção cinematográfica em um documento apresentado pelo próprio empresário.

Entre no canal de WhatsApp
da Coluna Manoela Alcântara

A carta, emitida pela Calixsan Capital Management e dirigida à Entre Investimentos, estabelece um compromisso de US$ 24 milhões e justifica o cronograma de pagamentos pela necessidade de cumprir os prazos do filme.

Segundo os investigadores, o documento está “em aparente contradição com a afirmação do colaborador de que desconhecia a destinação cinematográfica dos recursos”.

“O documento estabelece compromisso total de US$ 24 milhões, a ser integralizado em cronograma iniciado em 20/01/2025, com a justificativa expressa de que ‘time is of the essence to the production of the film’ (‘o tempo é essencial para a produção do filme’)”, afirma a PF.

Os investigadores prosseguem: “O valor e o cronograma coincidem com o contrato de financiamento do filme localizado no aparelho de Daniel Vorcaro. O documento está, assim, em aparente contradição com a afirmação do colaborador de que desconhecia a destinação cinematográfica dos recursos. Apenas a primeira página da carta foi apresentada.”

A análise consta em um documento assinado por investigadores nessa quinta-feira (15/10), no inquérito que apura o financiamento da produção sobre o ex-presidente.

Mineiro prestou depoimento em 1º de outubro, na condição de testemunha colaboradora, após acordo de delação premiada homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo a PF, o delator apresentou apenas a primeira página da carta, que já menciona a produção do filme. Diante da contradição com o depoimento, a polícia pediu à defesa o documento completo e explicações sobre a alegação de que o empresário desconhecia a finalidade dos repasses.

A PF pediu a prorrogação do inquérito por mais 90 dias e apontou que Mineiro poderá ser ouvido novamente para esclarecer as contradições.

Dinheiro

Outra divergência identificada pelos investigadores diz respeito à origem do dinheiro. Mineiro declarou que os aportes foram custeados com saques de uma linha de crédito no Master, venda de ativos ou recursos próprios da Entre Investimentos.

Segundo a PF, porém, uma planilha apresentada pelo colaborador mostra que a empresa recebeu R$ 12 milhões da Super Empreendimentos, apontada como ligada ao circuito financeiro de Vorcaro, em 12 de fevereiro de 2025. No dia seguinte, foram liquidados R$ 11,7 milhões em operações de câmbio.

Para os investigadores, a sequência é compatível com mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Nelas, em 11 de fevereiro, o banqueiro teria exigido que o câmbio “para o filme” fosse resolvido naquele dia.

A corporação também identificou uma divergência entre as declarações prestadas ao fundo e a versão apresentada em depoimento. Nos documentos de subscrição, a Entre informou que adquiria as cotas por conta própria e que não havia acordo para transferi-las a terceiros.

À PF, Mineiro afirmou que havia uma expectativa informal de passar as cotas para Vorcaro ou para o Master após a regularização cadastral. Para os investigadores, a incompatibilidade indica possível omissão de quem seria o beneficiário efetivo da aplicação.

O empresário afirmou, ainda, que pediu o resgate integral dos valores e um demonstrativo dos investimentos após conhecer a destinação dos recursos. A PF observou, contudo, que o único e-mail apresentado sobre o assunto solicita o saldo aplicado e orientações para o resgate.



Tribunal Brasília

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *