Líder de esquema de venda de anabolizantes ostentava carros de luxo

O morador de Águas Claras André Junqueira apontado como um dos líderes da uma rede criminosa de anabolizantes clandestinos e esbanjava carros de luxo em seu perfil nas redes sociais. Ele foi um dos alvos da Operação Narciso, considerada a maior ação do ano contra o comércio ilegal de anabolizantes e outras substâncias proibidas no Brasil.

Entre os veículos apreendidos com o suspeito estavam carros de marcas de luxo, como Audi, Dodge Ram, Mercedes-Benz e Porsche. Somados, os valores ultrapassavam os R$ 2 milhões.

André Junqueira que também atuava como DJ costumava compartilhar fotos dos carros com ele e sua esposa dirigindo.

Veja imagens dos carros de luxo:

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do Metrópoles

A investigação conduzida pela Divisão de Defesa do Consumidor da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf) revelou uma complexa engrenagem criminosa voltada à fabricação caseira, ao fornecimento de insumos, à rotulagem, à divulgação e à comercialização de anabolizantes, medicamentos controlados, produtos veterinários e suplementos com substâncias ocultas.

Ao todo, a Justiça expediu 43 mandados de prisão (preventivas e temporárias) e 64 mandados de busca e apreensão, além de determinar o bloqueio e sequestro de R$ 32 milhões em ativos financeiros e a quebra de sigilo bancário de 58 alvos.

O esquema contava com conexões em oito estados, além do DF, e uma ponte direta com a fabricação clandestina no Paraguai. As ações ocorrem nos seguintes estados: Santa Catarina, Acre, São Paulo, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba e Minas Gerais.

Mais de 20 estabelecimentos comerciais foram lacrados, 10 veículos de luxo apreendidos e mais de 30 sites de venda ilegal acabaram sendo tirados do ar. A organização criminosa contava com a participação de nutricionistas, biomédicos, veterinários, personal trainers e influenciadores digitais.

A apuração

A apuração teve origem na Operação Béquer, desencadeada em fevereiro do ano passado, após busca no apartamento de Carlos Henrique Rodrigues de Abreu. No local, foram apreendidos anabolizantes, insumos, cápsulas, rótulos e dois celulares.

A análise dos aparelhos revelou a fabricação residencial de produtos associados a Fellipe Dias e Felipe Semani, criadores das marcas clandestinas AlphaLabs, Mega Burner e Libid Up, além de expor uma teia de fornecedores, gráficas, motoboys e laboratórios undergrounds como HydraPharmace, Skullredlab, Sypharma, Eurolabs, New Science, GC e Yellow B.

Todos os laboratórios são alvos de mandados de busca, e seus proprietários possuem mandado de prisão preventiva ou temporária expedidos pela Justiça.

Cozimento mortal

De acordo com as investigações conduzidas pelo delegado Rodrigo Carbone, o coração do esquema operava sob o termo “cozimento”: a fabricação artesanal de substâncias injetáveis e orais em fundos de quintal, cozinhas residenciais, depósitos e locais improvisados, em fogo alto e sem qualquer assepsia ou controle sanitário.

Para aumentar o rendimento dos produtos e maximizar os lucros, os criminosos misturavam insumos importados da Índia, da China e do Paraguai a ingredientes altamente perigosos:

  • Aditivos e veículos: óleo de cozinha comum, além de óleos de semente de uva e de arroz manipulados sem esterilidade;
  • Substâncias ocultas em rótulos: o termogênico Mega Burner e o produto Yellow B continham substâncias ocultadas do consumidor final, como clembuterol (medicamento veterinário de uso exclusivo para equinos), sibutramina (potente inibidor de apetite), fluoxetina, bupropiona e diuréticos como hidroclorotiazida;
  • Efeitos deletérios à saúde: a ausência de controle técnico e a contaminação nos processos injetáveis têm provocado reações alérgicas graves, infecções severas e abscessos nos usuários. A viscosidade inadequada e as impurezas dos óleos causam embolias, tromboses e infecções generalizadas (sepse), levando vítimas a óbito — a exemplo do caso recente da morte de uma fisiculturista em Samambaia;
    O uso contínuo das substâncias ainda acarreta riscos cardiovasculares, aumento vertiginoso da pressão arterial, AVC, hipertrofia cardíaca e impotência sexual.

Integrantes e estrutura do esquema

  • Roberto Carlos Pereira de Carvalho, o Jiraiya

Função: apontado como um dos maiores traficantes de anabolizantes do país. Dono de laboratórios clandestinos espalhados por São Paulo, Paraíba, DF, Foz do Iguaçu (PR) e Paraguai.

Atuação: faturava R$ 500 mil líquidos por mês. Nunca “colocava a mão na massa”: contratava funcionários para fabricação e logística em mansões alugadas. Patrocinava nutricionistas e atletas (através do laboratório New Science) para prescreverem e divulgarem seus produtos. Vivia entre o Brasil e um bunker em Ciudad del Este, no Paraguai. Teve R$ 5 milhões bloqueados pela Justiça.

  • André Luiz de Amorim Junqueira

Função: cabeça da organização responsável pelo produto conhecido como “Yellow B” e dominador das técnicas de “cozimento” nos laboratórios undergrounds de São Paulo, Goiás e DF. Atuava também como DJ.

Atuação: com mais de 15 anos no mercado ilícito, mantinha forte ligação com gráficas para produção das embalagens falsas. Operava a lavagem de dinheiro por meio de fracionamento de Pix em casas de apostas (bets).

Residia em condomínio de luxo em Águas Claras e ostentava veículos Porsche, Audi e Mercedes.

  • Ana Luiza de Nazaré Lima e Alam Manoel Lima

Função: influenciadora digital com mais de 150 mil seguidores e seu ex-marido, ambos responsáveis pela divulgação, venda e logística do Yellow B e de produtos à base de testosterona.

Atuação: utilizavam as redes sociais para iludir clientes com promessas de emagrecimento rápido (até 7 kg em uma semana). Comercializavam os produtos em site próprio, enviavam pelos Correios ou entregavam no restaurante japonês do casal, em Ceilândia, usado como ponto de apoio.

Ostentavam carros importados e viagens internacionais.

  • Eduardo Vieira Euzébio, o “Gigante da estética”

Função: biomédico, proprietário de clínica na Asa Norte e ministrante de cursos de estética.

Atuação: atuava como intermediário dos laboratórios clandestinos. Adquiria anabolizantes, fazia a propaganda direta, negociava e aplicava as substâncias em suas clientes (em sua maioria, mulheres), mesmo ciente da procedência ilegal. Nas redes, afirmava cursar medicina na Bolívia.

  • Elisangela Pereira Acosta e Jorge Luiz Roa

Função: principais fornecedores de insumos e matérias-primas importadas. Sócios clandestinos de loja especializada em anabolizantes no Paraguai.

Atuação: moradores de Foz do Iguaçu/Paraguai, ocultavam as substâncias dentro de peças de motocicletas para envio a todo o Brasil via Correios, e-commerce ou “freteiros”. Utilizavam rede de doleiros e contas de laranjas para movimentar o capital. Jorge foi preso no Paraguai em ação conjunta da PCDF, Polícia Federal e Polícia Paraguaia.

Função: empréstimo de nomes e contas bancárias para ocultação do fluxo financeiro do tráfico.

Atuação: grupo composto por um casal dono de uma casa lotérica em Foz do Iguaçu, o proprietário de uma loja de materiais de construção, um engenheiro agrônomo e dois trabalhadores autônomos. Todos tiveram a prisão preventiva decretada por lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Das “bets” a mansões de luxo

O delegado Rodrigo Carbone afirmou que os alvos da operação são tratados como traficantes de drogas.

“Não estamos falando só de comercialização de esteroides e sim do universo underground do anabolizante. Existe um submundo que representa 80% do mercado, e é isso que as pessoas consomem normalmente”, disse.

“Esses produtos são feitos em fundo de quintal e isso coloca as pessoas em risco. Essa operação não investiga uma mera comercialização de anabolizantes, ela combate o submundo do underground de laboratórios clandestinos. Os alvos de hoje são verdadeiros traficantes”, afirmou.

Impulsionada pelo culto ao corpo difundido por influencers e pela expansão de academias e farmácias no DF, a organização movimentava milhões e exibia um padrão de vida suntuoso. Para dissimular a origem do dinheiro ilícito, os criminosos utilizavam engenhosos mecanismos de lavagem:

  • Casas de Apostas (Bets): André Luiz utilizava casas de apostas on-line para esquentar o capital. Ele fracionava o dinheiro em centenas de pequenas transferências via Pix para contas de bets e, em seguida, realizava os saques sob a justificativa de ganhos em apostas. Estima-se que cerca de R$ 4 milhões tenham sido lavados apenas nessa modalidade.
  • Empresas laranjas e doleiros: na fronteira, doleiros indicavam contas de laranjas no Brasil — incluindo empresas de materiais de construção, consultorias e até uma casa lotérica em Foz do Iguaçu — para ocultar os depósitos efetuados pelos compradores.
  • Fachadas comerciais: restaurantes e lojas de suplementação esportiva (como a Performance Nutrição Esportiva, de Wesley Dias Magalhães) eram usados como pontos físicos de estocagem, venda e entrega de anabolizantes, conferindo uma falsa aparência de legalidade aos produtos ilícitos.
  • Sinais de riqueza: o faturamento permitia aos líderes desfrutarem de viagens internacionais, hospedagens em hotéis de luxo no exterior (com passagens pelo Chile e Paraguai), moradia em condomínios fechados de alto padrão em Águas Claras e uso de frotas de luxo, incluindo veículos das marcas Porsche, Audi e Mercedes.



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