Após um homem de 37 anos ser preso por vender ayahuasca ilegalmente pela internet, nesta quinta-feira (5/11), surgem algumas dúvidas sobre o que é a bebida, em quais situações seu uso é permitido no Brasil e por que a comercialização é proibida.
Também conhecida como santo daime, vegetal ou daime, a ayahuasca é uma bebida psicoativa de origem amazônica, preparada a partir da combinação de plantas. Uma delas contém dimetiltriptamina (DMT), composto psicodélico que altera a percepção sensorial e pode provocar alucinações visuais e auditivas.
No Brasil, o DMT consta na lista de substâncias proibidas pela Portaria nº 344 de 1998 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Apesar disso, o uso da ayahuasca em rituais religiosos é reconhecido no país desde 2010, por meio de uma resolução do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad).
A resolução do Conad leva em consideração a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos, assegurados pela Constituição Federal. No entanto, esse reconhecimento não autoriza a comercialização da bebida.
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do Metrópoles DF
A mesma resolução considera a venda da ayahuasca e as promessas de cura incompatíveis com o uso religioso. Dessa forma, a comercialização pela internet, mesmo quando a bebida é apresentada como produto espiritual ou terapêutico, não está amparada pelas regras que reconhecem seu uso religioso.
Fora desse contexto, a ayahuasca pode ser consumida de forma recreativa, em retiros e encontros não regulamentados. O uso, porém, pode representar riscos à saúde dos usuários.
Entre os possíveis efeitos estão crises de ansiedade, paranoia e quadros psicóticos. Quando combinada com antidepressivos e outros medicamentos, a bebida também pode provocar reações graves.
MPF recomenda revisão das regras
Em setembro deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou ao Conad e à Anvisa a revisão das regras sobre a ayahuasca no Brasil, especialmente em relação aos usos religioso, espiritual e terapêutico.
Apesar de o DMT constar na lista de substâncias proibidas pela Anvisa, o MPF destaca que a Lei de Drogas prevê exceções para o uso ritualístico-religioso de plantas que contenham substâncias controladas.
Diante disso, o órgão recomendou ao Conad a criação de um Grupo de Trabalho (GT), com prazo de dois anos, para reunir informações e ouvir pessoas e organizações interessadas, especialmente comunidades indígenas e religiões ayahuasqueiras.
O Conselho também deverá reunir estudos e normas sobre a substância e produzir um relatório técnico para subsidiar decisões da Anvisa e estabelecer parâmetros para a produção, circulação e utilização da ayahuasca.
Já à Anvisa, o MPF recomendou a criação de outro Grupo de Trabalho, também com duração de dois anos, para discutir a regulamentação do DMT nos usos religioso, espiritual e terapêutico por comunidades tradicionais, religiões e grupos ayahuasqueiros.
Segundo o MPF, a falta de regulamentação específica sobre a produção e a circulação da ayahuasca, somada à permanência do DMT na lista de substâncias proibidas, pode abrir espaço para diferentes interpretações e abordagens policiais.
Operação Desvio Ritual
A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), por meio da Coordenação de Repressão às Drogas (Cord), prendeu, na manhã desta quinta-feira (5/11), um homem, de 37 anos, que usava a internet para vender ilegalmente “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil, incluindo a capital federal.
Veja vídeo:
A prisão faz parte da Operação Desvio Ritual, deflagrada em parceria com a Polícia Civil de Santa Catarina (PCSC), que mirou desmantelar uma rede de produção e distribuição ilícita da substância que contém DMT — composto classificado como proibido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As remessas eram enviadas do município de Palhoça (SC) para todo o país.
Durante a operação também foram cumpridos dois mandados de busca e apreensão, um de prisão preventiva vinculados ao investigado. Além de congelamento de bens e ativos financeiros, a extinção do CNPJ e bloqueio e exclusão dos perfis utilizados pelo homem.
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Homem vendia “microdoses” de ayahuasca em diversas regiões do Brasil
Material cedido ao Metrópoles
Como o investigado agia
Segundo a investigação, o homem usava um CNPJ e, muitas vezes, se apresentava como fornecedor de produtos para uso espiritual ou terapêutico. Após captar os clientes por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais, ele os direcionava para canais de comunicação privados, onde as vendas ocorriam.
De acordo com o delegado Paulo Renato Fayão, foram identificadas centenas de remessas para mais de 20 unidades da federação, incluindo o Distrito Federal, com entregas em Ceilândia, Taguatinga, Brazlândia, Águas Claras, Asa Norte e outras regiões.
O delegado destacou ainda que a operação não tem como alvo o uso religioso da ayahuasca, mas sim o comércio ilegal da substância.
“A Constituição garante a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos. E esse uso é reconhecido pelo Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (CONAD) desde 2010 e respeitado pela Polícia Civil. O que é proibido é o comércio, que não tem qualquer relação com um ato de fé”, explicou.
O investigado comercializava a substância em doses que variavam de 80 ml a 1 litro e enviava por encomendas expressas e postais, em embalagens que não mostravam o conteúdo, com rótulos e descrições genéricas para dificultar a detecção durante o transporte. O homem também orientava os compradores sobre como consumir a substância e quais dosagens consumir.
Ao longo da investigação, a Gerência de Segurança Corporativa dos Correios, no DF, identificou e interceptou remessas contendo ayahuasca no Centro de Distribuição. Após isso, o material foi encaminhado à PCDF, que identificou a ligação das encomendas com o esquema investigado na Operação Desvio Ritual.
O material apreendido foi encaminhado ao Instituto de Criminalística (IC) da PCDF, que identificou a presença de DMT.
O homem também foi indiciado por tráfico de drogas e pode pegar até 15 anos de prisão.








